Na resenha do livro O Fim da Educação, do educador, teórico de mídia e crítico de cultura norte-americano Neil Postman, publicada no Pasquim, em 2002, o jornalista Sérgio Augusto não escondia sua admiração pelas ideias do autor:
“...sou fã de um sujeito chamado Neil Postman. Sua visão da escola vai contra a corrente do que várias estrelas da pedagogia ‘moderna’ pensam e recomendam. Principalmente aquelas que acreditam que a principal finalidade do ensino é preparar as crianças para o ingresso competente na vida econômica de uma comunidade. Para estas, a escola não passa de um campo de treinamento básico para emprego futuro, uma fábrica de estudantes treinados para ser bons leitores de memorandos, relatórios trimestrais e cotações de papéis na Bolsa. Educação e produtividade seriam sócias ou cúmplices no entender dessa pedagogia baseada no utilitarismo econômico, num pragmatismo com pouco respaldo na realidade."
Em 1988, Postman, que faleceu em 2003, aos 72 anos, escreveu “My Graduation Speech”, texto que, em suas próprias palavras, seria o que ele gostaria de dizer para os jovens no discurso de formatura de uma universidade. Nunca esteve tão atual.
Tendo assistido a aproximadamente duas dúzias de discursos de formatura, eu, naturalmente, me perguntei por que eles geralmente são tão ruins. Uma razão, claro, é o fato de os oradores serem escolhidos pela sua proeminência em determinada área, e não porque são oradores competentes ou escritores talentosos. Outra razão é que a audiência está ansiosa para que a cerimônia termine e a festa possa ter início. Portanto, qualquer discurso, digamos, mais longo do que quinze minutos pode parecer entediante ou completamente sem sentido. Há outras razões também, como a dificuldade em se dizer algo inspirador sem ser banal. Aqui está minha tentativa de escrever um discurso de formatura, não apenas para descobrir se domino o formato. Ele é exatamente o que eu gostaria de dizer para os jovens se eu tivesse a atenção deles por uns poucos minutos. Se você acha que meu discurso ficou bom, concedo a permissão para que possa usá-lo, sem necessidade de aprovação ou crédito a mim, no momento apropriado.
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Membros do corpo docente, papais, mamães, convidados e graduados, não tenham medo. Estou ciente de que num dia de tanta excitação, o que vocês, em primeiro lugar, pedem a um orador é a concisão. E, nesse aspecto, não vou desapontá-los. Em meu discurso, há exatamente oitenta e cinco sentenças, quatro das quais vocês acabam de ouvir. Vou levar aproximadamente doze minutos para falar todas elas e confesso que tal economia não foi fácil para mim, pois escolhi seus antepassados como objeto, um tema complexo. É claro que não se trata de seus antepassados biológicos, sobre os quais nada sei, mas de seus antepassados espirituais, sobre os quais sei um pouco. Mais especificamente, quero falar a vocês sobre dois grupos de pessoas que viveram há muitos anos, mas que ainda hoje têm influência sobre nós. Eles eram bem diferentes um do outro, representando valores e tradições opostas. Acho apropriado que vocês se lembrem deles no dia de hoje porque, mais cedo do que imaginam, estarão alinhados ao espírito de um ou ao espírito de outro.
O primeiro grupo viveu há cerca de 2500 anos num lugar que agora chamamos de Grécia, numa cidade chamada Atenas. Não sabemos muito sobre suas origens como gostaríamos de saber. Mas sabemos muito sobre seus feitos. Eles, por exemplo, foram o primeiro povo a desenvolver um alfabeto completo, e, portanto, se tornaram a primeira população verdadeiramente alfabetizada do planeta. Inventaram a ideia da política democrática, a qual praticaram com uma vitalidade que nos deixa envergonhados. Eles inventaram o que nós chamamos de filosofia. E também inventaram a lógica e a retórica. Chegaram bem perto do que conhecemos como ciência, e um deles – chamado Demócrito – concebeu a teoria atômica da matéria 2300 anos antes que ela fosse descoberta por um cientista da era moderna. Eles compuseram e cantaram poemas épicos de beleza e graça inigualáveis. E escreveram e representaram peças teatrais que, quase três mil anos depois, ainda têm o poder de emocionar e divertir plateias. Eles até inventaram o que, hoje, chamamos de Olimpíadas, e entre seus valores, nenhum outro se destacou tanto como a busca da excelência em tudo o que faziam. Eles acreditavam na razão. Eles acreditavam na beleza. Eles acreditavam na moderação. E inventaram a palavra e a ideia do que hoje conhecemos como ecologia.
Há cerca de 2000 anos, a vitalidade de sua cultura entrou em declínio e essas pessoas desapareceram. Mas não o que elas criaram. Sua imaginação, sua arte, sua política, sua literatura e sua linguagem se espalharam pelo mundo de uma maneira que, hoje, é praticamente impossível tocar em qualquer assunto sem repetir o que algum ateniense tenha feito há 2500 anos.
O segundo grupo de pessoas viveu num lugar que chamamos de Alemanha, e apareceu há cerca de 1700 anos. Nós os chamávamos de visigodos, e vocês devem se lembrar de ter ouvido seu professor de sexta ou sétima série falar deles. Eram cavaleiros extraordinários, a única coisa agradável que a história pode falar sobre eles. Eles eram saqueadores – cruéis e violentos. Sua linguagem era grosseira e rasteira. Sua arte era tosca e grotesca. Eles varreram a Europa destruindo tudo o que encontravam pelo caminho, e invadiram o Império Romano. Para um visigodo, não havia nada melhor do que queimar livros, profanar uma edificação, ou destruir uma obra de arte. Os visigodos não nos deixaram poesia, teatro, lógica, ciência, política humanitária.
Como os atenienses, os visigodos também desapareceram, mas não antes de terem inaugurado um período conhecido como Idade das Trevas. A Europa levou quase mil anos para se recuperar dos visigodos.
Agora, o que eu quero enfatizar é que os atenienses e os visigodos ainda sobrevivem, e sobrevivem em nós e na maneira como conduzimos nossas vidas. Ao nosso redor – neste salão, nesta comunidade, em nossa cidade – há pessoas cujo o modo de ver o mundo reflete a conduta dos atenienses, e há pessoas cuja conduta é a conduta dos visigodos. Não quero dizer, é claro, que um ateniense de nossos dias fique vagando ao léu pelas ruas recitando poesia e filosofia, ou que um moderno visigodo seja um assassino. O que eu quero dizer é que ser um ateniense ou um visigodo significa organizar a vida de acordo com um conjunto de valores. Um ateniense é uma ideia. Um visigodo é uma ideia. Vou contar-lhes brevemente o que constitui essas ideias.
Ser um ateniense é ter conhecimento e, mais especificamente, ter a busca do conhecimento em alta estima. Contemplar, raciocinar, experimentar, questionar – estas são, para um ateniense, as mais apaixonantes atividades para a realização pessoal. Para um visigodo, a busca do conhecimento é inútil, a não ser que o ajude a ganhar dinheiro ou exercer o poder sobre outras pessoas.
Ser um ateniense é dar valor à linguagem por acreditar que ela é a dádiva mais preciosa da humanidade. Com a linguagem, o ateniense busca a bondade, a justiça e a diversidade. E admiram quem tem essa habilidade. Para um visigodo, uma palavra vale tanto quanto a outra, uma sentença é igual a outra. A linguagem de um visigodo não aspira nada além do estereótipo.
Ser um ateniense é entender que o fio que mantém a humanidade unida é tênue e vulnerável; portanto, atenienses dão grande valor a tradições, limites sociais e constância. Para um ateniense, a falta de educação é uma violência contra a ordem social. O moderno visigodo pouco se importa com tudo isso. Visigodos se consideram o centro do universo. Tradições existem para sua própria conveniência, a boa educação significa pedantismo e responsabilidades, e a história é apenas uma notícia de jornal do dia anterior.
Ser um ateniense é se interessar por assuntos públicos e pelo aperfeiçoamento das condutas da coletividade. De fato, os antigos atenienses tinham uma palavra para quem não se interessava por isso. A palavra era idiotes, que transformamos em “idiota”. O moderno visigodo está interessado apenas em seus próprios assuntos e não tem noção do significado de comunidade.
E, finalmente, ser um ateniense é dar valor à disciplina, à mestria e ao bom gosto que requer a confecção de uma arte duradoura. Assim, ao abordar uma obra de arte, um ateniense educa sua imaginação através do aprendizado e da experiência. Para um visigodo, a única medida para a excelência artística é a popularidade. Só o que chama a atenção das multidões é bom. Nenhum outro tipo de apreciação é respeitado ou mesmo admitido pelo visigodo.
Agora parece óbvio que tudo isso diz respeito a vocês. Eventualmente, como todos nós, vocês terão de estar de um lado ou de outro. Você deve ser um ateniense ou um visigodo. Naturalmente, é muito mais difícil ser um ateniense, pois você terá de aprender a ser um, deverá se esforçar para ser um, pois, queiramos ou não, de alguma forma somos todos visigodos por natureza. Por isso, há mais visigodos do que atenienses. E ressalto que vocês não serão atenienses só pelo fato de frequentarem uma escola ou acumularem graus acadêmicos. Meu sogro foi um dos mais comprometidos atenienses que eu conheci, e ele passou a vida toda trabalhando como alfaiate na Sétima Avenida, em Nova Iorque. Por outro lado, conheço físicos, advogados e engenheiros que são, com certeza, visigodos convictos. E também tenho que confessar a vocês, tão triste quanto envergonhado, que algumas de nossas maiores universidades, talvez até esta, tenham mestres dos quais podemos dizer, sem cometer injustiças, que são visigodos dissimulados. E mesmo assim, não duvidem, em momento algum, de que, essencialmente, a escola é uma ideia ateniense. Existe uma ligação direta entre as realizações culturais de Atenas e o tudo o que tem a ver com o corpo docente desta universidade. Não é difícil imaginar que Platão, Aristóteles e Demócrito se sentiriam em casa em nossas salas de aula. Um visigodo se limitaria a rabiscar obscenidades pelas paredes.
E assim, quer vocês estejam cientes ou não, o propósito desta universidade é dar uma visão do modo de vida ateniense e despertar o interesse por ela. Não podemos saber quantos de vocês irão seguir por esse caminho ou quantos não irão. Vocês são jovens e não temos como prever o futuro. Para encerrar, mais uma coisa: a maior felicitação que posso desejar a vocês é ver relatado, no futuro, que nesta turma o número de formandos atenienses superou com folga o de visigodos.
Obrigado, e parabéns.
Publicado originalmente no livro Conscientious Objections: Stirring Up Trouble About Language, Technology and Education, editora Alfred A. Knopf, New York, 1988

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